Bailes dos Reis


Os «Bailes dos Reis» era uma peça de origem medieval representada na Pousa. Esta peça mereceu destaque, em 1967, no jornal Comércio do Porto. A notícia nesse jornal descreve perfeitamente a peça, por isso essa mesma vai ser transcrita para aqui. 

                      

«Sábado, 7 de Janeiro de 1967

 

REPORTAGEM GRÁFICA

 

OS «BAILES DOS REIS»

 

- UMA REMINISCIÊNCIA DO TEATRO MEDIEVAL QUE REVIVE NUMA FREGUESIA MINHOTA

 

     A freguesia da Pousa (Santa Cristina da Pousa) está situada a nascente da sede do concelho de Barcelos, na margem esquerda do rio Cavado e confina com as freguesias da Graça e Cabreiros, do vizinho e amigo concelho de Braga.

     Gente boa, inteiramente dedicada ao trabalho, tirando do labor quotidiano todo o proveito, com o qual faz face às mil e uma dificuldades que neste rodar dos tempos a todos aflige, tem no seu passado algumas reminiscências, que constituem orgulho e delas se não desprende, antes as radica como o melhor testemunho de uma geração, que sabe honrar os costumes dos seus antepassados e faz voltar uma tradição.

     Foi exactamente isto que nos disse um simpático velhinho de setenta e sete anos de idade, de faces enrugadas mas de espírito desempoeirado e descontraído, quando dele quisermos saber como foi possível colher elementos para pôr em cena os «Bailes dos Reis» - uma «peça» que vem do tempo medieval e que chegou até aos nossos dias com o mesmo sabor de originalidade, a mesma pureza de sentimentos, numa interpretação que sendo rude por vezes, não deixa de ser ingénua e poética…

    

HÁ CERCA DE 70 ANOS, JÁ FAZIA O PAPEL DE ANJO

 

     Interpretando ainda hoje o papel de «Embaixador», Abílio Rodrigues Morais, que há cerca de setenta anos já fazia o papel de «Anjo», seguindo-se-lhe o de «Pastor» e outros, recitou de memória e integralmente o texto da «peça», que foi depois recolhido rudimentarmente, para se tornar válido no presente e no futuro, seguro como estamos de que a sua representação continuará a passar de pais para filhos, numa sequência interminável e muito própria da gente boa e simples das nossas aldeias rurais.

     E no desfiar da «peça», não sabemos que mais admirar: se a naturalidade e simplicidade dos intérpretes nos vários grupos em que se integram, como «Adoração dos Magos», as «Loas dos Pastores», se o decrépito e «Velho Simeão», o endiabrado «Herodes», no terror que inspira às crianças, se ainda os adereços pilosos da caracterização, rudimentares embora, mas de significado bem expressivo, nas suas cores garridas.

    

                            O DESENROLAR DA PEÇA

 

     A «peça» abre com a «Adoração dos Pastores» e dos «Reis Magos», e enquanto o «Embaixador» anuncia às gentes o nascimento do Redentor:

 

                         Vede a brilhante estrela

                         Nascida no Oriente

                         Que nos vem visitar

                         O nosso Deus Omnipotente.

 

     - «Herodes» dá voltas ao «baile», no intuito de descobrir o paradeiro do Messias, percorrendo os lugares mais distantes, subindo às árvores, sempre que divisa o corpo humano de uma criança, entretanto que a «pequenada» se vai aterrorizando com as suas pantominas.

     E continua com sucessivas intervenções dos «Reis Magos» e dos «Pastores»; do «Anjo» e do «Ermitão»; do «Velho Simeão» e do «Embaixador» e conclui em apoteose, com as contradanças em honra do Deus nascido:

 

                           Vinde amigos receber

                           Jesus Cristo Rendentor

                           Aceitai tão bela prenda

                           Prenda de tanto valor.

 

- e com a bênção do «Anjo» lançada a todos os intérpretes do «baile», fazendo cruzes com a mão direita:

                                     

                           Abençoados sejais

                           Ó Infante de Belém

                           Em nome do Pai e do Filho

                           E do Espírito Santo Amem.

 

     Os cânticos são acompanhados por um terceto musical composto de viola, violino, e requintada e os ensaios, dirigidos por aquele Abílio Rodrigues Morais, vêm sendo orientados pelo etnógrafo Feliciano Lopes Gomes, que está a proceder à recolha de todos os elementos indispensáveis para dar à «peça» de os «Bailes dos Reis» toda a sua belexa poética e simples, integrando-a no número das peças que compõem o nosso «Teatro Popular Minhoto».

 

                                                                                    José Teixeira».

 

 

 

 

Bibliografia:

P.e Hélio Gomes Ribeiro, "Pousa Sta Cristina - Reguela S. Salvador", 1979.  

Jornal “Comércio do Porto”, Edição de 7 de Janeiro de 1967.