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Artesanato

 A descoberta da habilidade, por parte de Carminda Rodrigues, septuagenária, residente no lugar do Outeiro da freguesia da Pousa, para entalhar e esculpir madeira, ocorreu à sete anos atrás. Desde então tem feito peças admiráveis que impressionam, ainda mais se tivermos em conta que usa ferramentas rudimentares tais como: uma foice, um serrote, um machado e um formão.

 

 Carminda

 

Esta mulher é autodidacta ou seja, aprendeu pela sua própria mão, nunca tendo sequer visto alguém a esculpir madeira. Acerca da falta de instrução diz ter aprendido a ler um pouco, “só sei escrever o meu nome” e “nunca andei na escola e nunca fiz desenhos”. E finaliza “naquele tempo, não era obrigatório ir à escola, começávamos a trabalhar cedo”. Na infância também aprendeu a bordar, tecer pano e a espadelar sozinha.

 

 Ferramentas

 

As peças que faz são figuras de santos e alguns objectos decorativos. Tudo o que faz é para si, nunca vendeu nada, embora já lhe tenham oferecido dinheiro para fazer peças. Sempre recusou porque pelas suas palavras “dá muito trabalho porque é tudo feito à mão” e “para vender tinha que arranjar máquinas” e também “leva meses e mais meses a concluir uma peça”. Pelo facto de trabalhar no campo durante o dia só pode trabalhar nas peças à noite, normalmente até às três da madrugada. Além disso só pratica esta arte porque gosta de esculpir madeira e tem gosto nas peças que faz. Nunca procurou o lucro que poderia alcançar ao vender as suas peças, nem o reconhecimento da sua veia artística.

 

Sala de Carminda

 

No entanto, o reconhecimento da habilidade desta artista popular, surgiu naturalmente na forma de vários convites para fazer exposições em várias cidades do país tais como: Celorico de Basto, Lisboa, Porto e Barcelos, conforme o atesta as várias cartas que recebeu para esse efeito. No entanto sempre recusou fazer exposições por causa de “parte-se qualquer coisa e é um desgosto” e “retratos pode-se pôr”, embora já tenham havido várias pessoas a tentar convencê-la nesse sentido.

 

                   Anjo

 

A primeira peça que fez teve a sua origem num acontecimento triste para a artista: o roubo de um Cristo de um oratório que tinha na sua casa. Logo nesse momento pensou que poderia fazer um para substituir o roubado. Com uma enorme devoção a Cristo e aos santos da Igreja pôs a sua ideia em marcha. A primeira coisa que fez foi “fui pedir à minha irmã uma trave de madeira velha que ela tinha parada” e começou a trabalhar em segredo. Concluída a peça não ficou muito contente porque o Cristo Crucificado “ficou muito magrinho e eu fiquei triste, é claro, porque não ficou como eu esperava”. Não ficando derrotada com esta primeira experiência, decidiu esculpir uma nova imagem de um Cristo Crucificado. Para esse efeito “pedi a um vizinho para cortar um castanheiro que tinha numa propriedade minha, como era mais grosso que a trave que a minha irmã me tinha dado já dava para trabalhar mais à vontade”. Secretamente começou a esculpir o novo Cristo. Desta vez ficou satisfeita com o resultado final, o que lhe deu ânimo para juntar a esta peça uma Senhora das Dores, quase em tamanho real, três anjos, o Espírito Santo e a “Pomba da Paz”. Tudo isto colocou a decorar a sua sala, o que deu a esta um aspecto bastante impressionante e admirável.

 

        Senhora das Dores

 

A artista também já fez alguns objectos utilitários entre os quais uma espadeladeira, utensílio usado antigamente para espadelar o linho. Esta peça foi de certa forma obrigada a fazê-la pelo facto de “tinha uma mas roubaram-na. Em vez de comprar novas, pequei numa tábua velha e fiz uma parecida, com os desenhos e tudo”.

 

 Cálice e Espadeladeira

 

Como sempre fez todas as peças às escondidas de todos, os vizinhos ficavam intrigados pelo facto desta mulher passar tanto tempo no rés-do-chão da sua casa e frequentemente até às tantas da madrugada. O segredo foi desvendado quando esta partiu uma perna porque as pessoas “vinham a minha casa visitar-me“ e viam, admiradas, as peças que esta tinha expostas na sala. O motivo porque tinha guardado segredo da sua habilidade era: “tinha vergonha de mostrar às pessoas o trabalho que estava a fazer porque achava que este trabalho era para homens” e “tinha medo de ser gozada por isso”. Depois da descoberta a sua arte, a septuagenária captou a atenção do jornal Correio do Minho, que publicou uma reportagem sobre a artista na sua edição de 25 de Julho de 2004. Mais tarde foi a vez do jornal Barcelos Popular, na sua edição de 3 de Fevereiro de 2005.

 

 Primeira Peça - Cristo Crucificado

 

Carminda Rodrigues, apesar  da idade, ainda possuiu bastante motivação para fazer novas peças, como se pode comprovar quando diz “eu só queria ter madeira que eu fazia aqui uma coisa bonita”. Os instrumentos que usa para criar as peças são bastante rudimentares: uma foice, um serrote, um machado e um formão, e por causa disso diz “se tivesse boas ferramentas e madeira em condições podia fazer coisas mais bonitas”. O resultado final é impressionante e extraordinário, tendo em conta as ferramentas utilizadas e a falta de instrução da criadora. Todas as pessoas ficam admiradas com a sua obra. No entanto, “há quem não acredite que faço tudo isto à mão e com estas ferramentas que já estão todas velhas”, mas não se preocupa minimamente com isso.

 

  Santo e Pombas

 

A inspiração para as suas peças vai buscá-la às imagens que vê nas igrejas. “Quando vou à missa fico a olhar para os santos depois venho para casa fazer a peça aos bocadinhos”. Carminda possui uma fé cristã inabalável e a esse propósito diz “gosto muito de santos”.  

  

                Espírito Santo

 

Desde cedo, Carminda foi uma mulher de trabalho. Desde muito nova que conhece os afazeres do campo. Mais tarde foi trabalhar para uma fábrica na freguesia vizinha de S. Romão da Ucha. Primeiro, “para revistar obra”, mais tarde para fazer serviços de limpeza porque “tinha pouca vista”. “Tem sido uma vida dura e difícil, negra mesmo, tenho passado das delas mas Nosso Senhor tem-me ajudado”. Ficou solteira “porque quis”, esclarece de imediato, “mas também não estou triste por isso”. “Só não casei porque não quis, moços não me faltaram”, acrescenta.

    

       Coroa 

 

A sua paixão é mesmo “estar de volta da madeira”. Dedica horas e horas a esculpir, só não passa mais tempo devido ao trabalho do campo que faz porque “não gosto de ver as terras a monte” e não porque necessite. E continua: “Sempre fui uma mulher de trabalhar, não gosto de estar parada”.

 

 Pomba da Paz

 

O projecto que, neste momento, tem em mãos é terminar a escultura da Rainha Santa Isabel. Uma ideia a concretizar num futuro próximo é a imagem da Santa Cristina, padroeira da Pousa. Carminda Rodrigues diz que sempre que vai à missa ou ao terço fica a admirá-la. “Tenho muita fé na Santa Cristina, vou ter que arranjar tempo para fazer uma”, promete.

 

 

 

Bibliografia:

Jornal Correio do Minho, edição de 25 de Julho de 2004.

Jornal Barcelos Popular, edição de 3 de Fevereiro de 2005.

Entrevista com Carminda Rodrigues.


 

Alterações no Executivo da Junta

 

Alterações na Assembleia de Freguesia

 

Mensagem do Presidente